Eleições na Ucrânia dependem de cessar-fogo, aponta análise de especialista
A prolongada guerra na Ucrânia, que já ultrapassa a marca de 4 anos, impõe um cenário de incertezas que vai além do campo de batalha. O país enfrenta um hiato democrático significativo, com o adiamento por tempo indeterminado das eleições parlamentares e presidenciais, impedidas pela vigência da lei marcial. Enquanto o presidente Volodymyr Zelensky permanece no cargo, o debate sobre a retomada do processo eleitoral ganha novos contornos entre a população e a classe política.
Estabilidade como condição para o retorno às urnas
Em entrevista ao Poder360, a jornalista Olga Rudenko, editora-chefe do The Kyiv Independent, destacou que o consenso entre os ucranianos prioriza a segurança nacional. Segundo a jornalista, a maioria da população compreende os riscos inerentes à realização de um pleito durante o conflito armado, defendendo que a estabilidade é um pré-requisito indispensável.
A visão predominante é de que um acordo de paz ou, no mínimo, um cessar-fogo estável, seria necessário para viabilizar o exercício do voto. Atualmente, a Ucrânia opera sob um sistema semipresidencialista, onde o chefe de Estado possui mandato de 5 anos, com possibilidade de apenas uma reeleição consecutiva.
Pressão política e o caso do ex-ministro da Defesa
O debate sobre a governança foi reaquecido em agosto de 2026, após uma declaração pública do ex-ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov. Demitido em julho por Zelensky sob a justificativa de falta de sincronia com as Forças Armadas, Fedorov classificou a situação do país como uma “crise sistêmica de governança” e defendeu a realização de eleições imediatas.
Apesar da popularidade do ex-ministro, que chegou a mobilizar protestos, o presidente Zelensky mantém uma postura cautelosa. Em 23 de agosto, o líder ucraniano afirmou que o pleito neste momento funcionaria como um “tsunami” para o Estado, potencializando divisões internas. Dados do KIIS (Instituto Internacional de Sociologia de Kiev) corroboram a cautela do governo: cerca de 57% da população apoia novas eleições apenas após o término total da guerra.
Confiança popular e o papel de Zelensky
A manutenção de Zelensky no poder é sustentada por uma parcela significativa da opinião pública que reconhece sua atuação no início do conflito. Pesquisas realizadas entre 21 de agosto e 10 de setembro indicam que 54% dos ucranianos ainda confiam no presidente. A imagem de Zelensky permanece fortemente associada à resistência e à representação internacional do país.
Contudo, a ausência de eleições gera preocupações sobre a qualidade da democracia ucraniana. Olga Rudenko ressalta que a falta de um processo eleitoral retira da população a capacidade de influenciar diretamente a governança. Para a jornalista, a concentração de poder exige um escrutínio constante para assegurar que as decisões tomadas em nome do Estado sejam devidamente fiscalizadas, independentemente do apoio popular ao presidente.
Fonte: poder360.com.br