POLÍCIA

A história oculta de Goiás antes da construção de Brasília

A narrativa tradicional sobre a fundação de Brasília frequentemente ignora o que existia no Planalto Central antes da chegada de Juscelino Kubitschek. A imagem consolidada de uma capital erguida do nada, em um vazio demográfico e geográfico, é desafiada por uma pesquisa profunda que resgata a ocupação histórica, os mapas e a presença goiana na região muito antes do projeto de Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

Essa perspectiva é o foco do trabalho da arquiteta e pesquisadora Lenora de Castro Barbo. Através de uma investigação acadêmica que percorreu documentos, expedições e relatos históricos, ela demonstra que o território que hoje abriga a capital federal já possuía uma dinâmica social, política e econômica estabelecida por goianos, cientistas e viajantes séculos antes da inauguração em 1960.

O alicerce goiano e a memória do território

A exposição “Brasília: o alicerce goiano de um sonho brasileiro”, em cartaz no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), materializa essa tese. A mostra propõe uma reflexão sobre a pré-existência de Brasília, argumentando que a construção da capital não foi um evento isolado, mas o ápice de um longo processo de exploração e mapeamento do interior brasileiro.

Ao analisar mapas coloniais e registros de viajantes, a pesquisa desmonta o mito do “vazio” do Cerrado. A própria pesquisadora enfatiza que ignorar esse passado é apagar a identidade de gerações que já habitavam e transformavam o solo goiano muito antes da chegada dos grandes canteiros de obras da nova capital.

Resgate arqueológico através de relatos históricos

Para reconstruir a paisagem que antecedeu a metrópole, Lenora de Castro Barbo mergulhou em relatos dos séculos XVIII e XIX. A metodologia utilizada foi quase arqueológica, sistematizando informações de dezesseis personagens que descreveram rios, serras, caminhos e propriedades rurais que foram, posteriormente, absorvidos pelo Distrito Federal.

O trabalho de sistematização desses relatos permite visualizar um território que já era percorrido e compreendido. A exposição no IHGG, que permanece aberta ao público até outubro, utiliza mapas de diferentes épocas para ilustrar como o país direcionou seu olhar para o Planalto Central, transformando uma região já ocupada no epicentro do poder político nacional.

Desconstruindo o mito do marco zero

A ideia de que Brasília surgiu por um ato de vontade política que “deu à luz” a cidade em um deserto é vista pela pesquisadora como um roteiro errôneo. Ao questionar a narrativa de que nada existia ali, o trabalho de Lenora devolve o protagonismo aos goianos que viviam no local. A exposição convida o visitante a observar o processo de transição, onde a monumentalidade da arquitetura moderna acabou por comprimir, mas não apagar, as camadas de história que a precederam.

Fonte: jornalopcao.com.br

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