A estratégia da extrema-direita para impor controle social através da censura cultural
O cenário cultural brasileiro tem sido palco de uma ofensiva sistemática que busca restringir a liberdade de expressão e moldar o comportamento social sob uma ótica conservadora. O que se observa é uma articulação articulada por grupos de extrema-direita que, por meio de pressões diretas e campanhas em redes sociais, tem logrado êxito em cancelar exposições, espetáculos e eventos literários em diversas regiões do país.
Essa investida não é isolada, mas parte de um projeto de poder que enxerga na cultura um campo de batalha ideológico. Ao rotular manifestações artísticas como ofensivas aos chamados “bons costumes”, esses grupos conseguem forçar o encerramento prematuro de mostras e o veto a artistas que divergem de sua visão de mundo, promovendo um ambiente de autocensura e medo.
O histórico de perseguições e o fechamento de exposições
O marco inicial dessa onda de restrições remonta a 2017, com o fechamento da exposição Queermuseu, realizada no centro cultural do Santander, em Porto Alegre. A pressão exercida nas redes sociais alegava que a mostra atentava contra valores morais, resultando no encerramento antecipado do evento. O padrão de mobilização digital seguido por represálias institucionais tornou-se um roteiro recorrente.
Mais recentemente, em maio deste ano, a exposição Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, foi encerrada precocemente. A justificativa utilizada pelos críticos foi a suposta apologia ao crime, o que evidenciou a fragilidade das instituições diante de campanhas de difamação organizadas. O caso ilustra como a censura se traveste de defesa da legalidade para suprimir expressões culturais periféricas.
Vetos a artistas e a tentativa de imposição da unicultura
A estratégia de controle estende-se ao campo da música e da literatura, onde vozes dissonantes são alvo de cancelamentos. Em 2023 e 2024, o cantor Johnny Hooker teve shows vetados em Boa Vista e Niterói, respectivamente, após o resgate de vídeos antigos sobre a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. O episódio demonstra a tentativa de punir artistas por posicionamentos ideológicos que desafiam o conservadorismo religioso.
Da mesma forma, a Festa Literomusical de São José dos Campos, no ano passado, sofreu o cancelamento da participação da jornalista Milly Lacombe. A prefeitura local vetou a presença da profissional devido a críticas públicas feitas por ela ao conceito tradicional de família. Tais ações revelam o objetivo central desses movimentos: a imposição de uma “unicultura”, onde a pluralidade é substituída pela convergência forçada ao ideário da extrema-direita.
Para aprofundar o debate sobre o papel da arte na sociedade contemporânea, é possível consultar análises sobre diversidade cultural e liberdade de expressão. A resistência a esse projeto de tutela cultural é fundamental para a manutenção dos direitos individuais e para a preservação de uma democracia que valorize a multiplicidade de vozes em vez da censura.
Fonte: cartacapital.com.br