Política

Segurança, saúde, economia e IA: os temas que vão pautar a disputa pelo governo de Goiás em 2026

A corrida pelo Palácio das Esmeraldas em 2026 começa a revelar seus contornos antes mesmo do início oficial das campanhas. Alguns dos nomes mais conhecidos do eleitorado goiano, o governador Daniel Vilela (MDB) e o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), já abriram o jogo sobre o que pretendem debater com a população. As divergências deixam claro que a disputa vai muito além de nomes: é uma batalha por narrativas sobre o que Goiás foi, é e pode ser.

Segurança pública, saúde e educação dominaram os planos de governo de 2018 e 2022. Em 2018, a crise fiscal do estado e o desgaste do ciclo do PSDB nos governos de Marconi Perillo e José Eliton colocaram gestão pública e combate à corrupção no centro do debate.

Caiado venceu no primeiro turno e passou os dois mandatos convertendo essas promessas em argumentos de reeleição. Em 2022, a disputa funcionou como um referendo sobre a gestão: segurança e equilíbrio fiscal foram os pilares da campanha de reeleição, enquanto a oposição tentou, sem sucesso, pautar saúde e desigualdade.

Em 2026, os mesmos temas retornam com pesos diferentes. A segurança, tratada como realização consolidada, perde força como promessa e passa a ser cobrada como obrigação. A saúde, que ficou em segundo plano nas duas últimas eleições, emerge como o principal ponto de contestação da oposição.

E temas até então ausentes do debate goiano ou pouco explorados, como inteligência artificial, saneamento e mobilidade urbana, aparecem com alguma centralidade nas falas dos pré-candidatos. É dentro desses eixos que os pré-candidatos estão posicionando suas candidaturas.

Segurança pública

Vilela posiciona a segurança como o maior legado do período Caiado e pretende sustentá-la como eixo central da sua campanha. Cita dados do governo estadual que apontam quedas expressivas em homicídios dolosos, latrocínios e roubos ao longo dos últimos sete anos.

“Vai falar que o governo Caiado e Daniel se compara do ponto de vista da área da segurança? Nós chegamos em um dia só ter em Goiânia 90 caminhonetes assaltadas. Hoje, quanto tem muito, é três durante um mês inteiro”, afirmou, em entrevista recente. O governador menciona ainda a incorporação de sistemas de inteligência artificial nas operações policiais como diferencial tecnológico da gestão.

Perillo não contesta os números diretamente, mas os enquadra como herança do modelo que diz ter iniciado em seus governos. Para o cientista político Rodrigo Andrade, independentemente da disputa de crédito, o tema tende a perder centralidade em 2026. “Em 2018, a segurança era uma promessa. Em 2022, era uma realização. Em 2026, começa a ser uma obrigação. O eleitor cobra mais do que comemora”, avalia.

Saúde

É na saúde que a oposição aposta encontrar espaço. Perillo aponta problemas concretos nos serviços públicos como sinal de deterioração da gestão. “O que a gente está vendo, por exemplo, 50% do povo dizendo que a saúde está precária, está ruim, não tem remédio no posto saúde, não tem remédio de alto custo. Filas para tirar o remédio de alto custo. O Ipasgo sem funcionar”, disse o ex-governador, em entrevista recente. Ele também citou macas em corredores do Hugol e do Hugo como exemplos de deterioração dos serviços.

Vilela responde citando a regionalização da saúde e a ampliação da rede hospitalar como avanços do período. Para Rodrigo Andrade, o tema representa a principal vulnerabilidade do campo situacionista.

“O eleitor goiano avalia bem o governo Caiado globalmente, mas quando a pesquisa desce ao nível dos serviços cotidianos — posto de saúde, fila de remédio — a percepção muda. É nesse espaço que a oposição vai tentar construir a eleição”, diz.

Desenvolvimento econômico

Perillo defende que Goiás perdeu protagonismo na atração de investimentos industriais para estados vizinhos. “O Mato Grosso do Sul anunciou agora uma indústria de etanol de milho de 10 bilhões de reais. O Mato Grosso, 20 bilhões de reais. Esses estados estão nos passando. Qual é a indústria que o governo atual trouxe para Goiás?”, questiona.

Vilela contesta. “Goiás nunca recebeu tantas empresas e indústrias como nos últimos sete anos. Foram anúncios bilionários de investimento do setor automobilístico e farmacêutico”, afirmou também em entrevista.

O governador também usa o distrito industrial de Aparecida de Goiânia — o Dianot, com cem por cento de ocupação e mais de 22 mil empregos gerados, segundo o governo estadual — como contraponto à narrativa da oposição.

Educação e inovação

Vilela defende a expansão do modelo de educação vocacional iniciado na gestão Caiado, com foco em ensino técnico, tecnologia e valorização do magistério. Cita o Bolsa Estudo para 250 mil alunos da rede pública estadual e a criação de escolas com foco em relações internacionais e idiomas como o mandarim entre as realizações que pretende ampliar.

Perillo, por sua vez, propõe a criação de uma cidade tecnológica voltada à inteligência artificial como projeto-âncora de um eventual novo governo. “Eu quero criar um parque, uma cidade tecnológica para a inteligência artificial. Esse é o projeto, é o carro-chefe do nosso próximo governo”, disse.

Também defende ecoparques para transformação de resíduos sólidos em biomassa e um anel viário para a Região Metropolitana de Goiânia — propostas que, por ora, aguardam detalhamento.

Os outros nomes e a nacionalização da disputa

A corrida ao governo não se resume a Vilela e Perillo. O senador Wilder Morais (PL) já anunciou pré-candidatura pelo partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, que obteve 58% dos votos válidos em Goiás no segundo turno de 2022. Morais tende a puxar o debate estadual para temas caros ao bolsonarismo — segurança com viés punitivista, defesa do agronegócio e críticas ao governo federal — importando para a disputa goiana a polarização da corrida presidencial.

No campo progressista, o PT articula uma candidatura que sirva de palanque para Lula em Goiás. A presença de um nome petista competitivo pode sair em defesa de temas como desigualdade social, programas federais e serviços públicos entrem com mais força na agenda estadual.

A candidatura presidencial de Ronaldo Caiado (PSD) adiciona mais uma camada de complexidade. Ao disputar o Planalto, Caiado reduz sua presença na campanha goiana — o que Vilela reconhece publicamente. Mas sua figura segue como referência central para o eleitorado de centro-direita do estado. Para Rodrigo Andrade, o risco é claro: “O desafio de Vilela é construir uma identidade própria forte o suficiente para que o eleitor vote nele, não apenas no legado de Caiado”, finalizou.

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