Empreendedorismo feminino em Goiás e a força de mulheres que transformam desafios em desenvolvimento

Um trabalho cheio de cuidado que começa antes mesmo do dia clarear em Goiânia, quando a maior parte da cidade ainda dorme. Essa é a rotina de Ana Maria Cândido, de 61 anos, que costuma estar de pé pouco depois das 4h da manhã, preparando o que, para muitos, é só tempero, mas que, para ela, representa sustento. Dente por dente, o alho é descascado de forma artesanal, sem atalhos. “Eu faço tudo. Depois de descascar o olho, na mão mesmo, separo os outros ingredientes e misturo no multiprocessador”, resume. Entre o cheiro forte do alho batido e o colorido do tempero já pronto, Ana organiza os produtos para mais um dia de labuta na vida de quem empreende.
Há quase quatro décadas, Ana trocou a carteira assinada pela incerteza das feiras livres. O que muita gente definiu como “loucura” à época, Ana chama hoje de “decisão acertada”. É que foi com o trabalho como feirante que a empreendedora conseguiu criar o filho, hoje com 38 anos, e formá-lo no curso de Jornalismo. “Eu trabalhava como celetista em uma empresa onde eu era responsável por embalar bolsas de soro, mas como entendi, ainda quando estava grávida, que seria mãe solo e teria de criar meu filho sozinha, imaginei que o salário seria pouco. Eu precisava pensar em algo para resolver isso”, relembra Ana ao citar que não chegou a concluir os estudos, parando as atividades escolares antes de começar o Ensino Médio. A decisão de protagonizar uma reviravolta na vida profissional não foi fácil, mas foi marcada por coragem. A coragem de quem decidiu pedir demissão para apostar no próprio negócio. Ana investiu todo o dinheiro do acerto em mercadorias e comprou pontos em diferentes feiras livres de Goiânia. O que parecia risco, virou, na prática, caminho para estruturar a vida dela e do único filho.
No início, o maior desafio não era acordar cedo ou enfrentar o calor intenso sob as lonas das barracas. Era, na verdade, o medo de não dar certo. “Trabalhar em feiras livres é um desafio diário. Não é fácil e não é para qualquer um. Faça chuva ou sol, temos de estar com a banca montada e sorriso no rosto”, diz Ana ao destacar que as dificuldades não param por aí. É que, além das incertezas, vieram também os preconceitos. “Por vários motivos… Por ser mulher, por ser mãe solo, por não me encaixar nas expectativas alheias. Alguns homens achavam que podiam fazer qualquer tipo de piadinha, mas eu colocava todos eles no seu devido lugar”, diz. Com o tempo, criou o que chama de “casca dura”, uma armadura invisível que, como a própria feirante pontua, a manteve de pé.
Depois de anos de trabalho, Ana buscou a formalidade e se tornou microempreendedora individual. Foi entre bancas montadas e desmontadas, semana após semana, que ela construiu uma clientela fiel. E, mais do que isso, criou o filho sozinha com o dinheiro da feira, conquistou independência financeira e realizou sonhos que muitos duvidavam. Sonhos que, de fato, antes pareciam distantes. “Criar meu filho com o dinheiro que conquistei graças ao meu trabalho nas feiras é motivo de orgulho. Eu faria tudo exatamente igual”, garante Ana ao citar que agora, já com a vida estabilizada, não tem mais a necessidade de se desdobrar para vender seus produtos em nove feiras diferentes por semana. “Hoje faço cinco feiras e consigo dedicar meu tempo livre para cuidar de mim, ir à academia e curtir meus netos. Sou grata por tudo que conquistei graças ao meu esforço”.A história de Ana, marcada por coragem, trabalho e reinvenção, não é um caso isolado ou ponto fora de curva. Ela é um exemplo de como os pequenos negócios têm contribuído de forma significativa para movimentar a economia goiana e do País. E, mais do que isso, Ana representa a força do empreendedorismo feminino cada vez mais em alta. Em uma década, o Brasil registrou crescimento de 27% no número de mulheres à frente de negócios, passando de 8,2 milhões em 2015 para 10,4 milhões em 2025, o maior patamar da série histórica. O ritmo foi superior ao masculino no período, com diferença de 16 pontos percentuais, segundo levantamento do Sebrae com base na PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).
Em Goiás, esse movimento também é crescente, com cerca de 374 mil empreendedoras no Estado, o que representa 12% da população feminina em idade de trabalhar. De acordo com o levantamento ‘Mulher Empreendedora’, do Observatório Sebrae, divulgado este ano, 44% dos pequenos negócios goianos são liderados por mulheres , índice acima da média nacional, que é de 34%.
Para a gestora de empreendedorismo feminino do Sebrae Goiás, Vera Lúcia Oliveira, os dados revelam um avanço consistente, ainda que acompanhado de desafios estruturais. “É uma grande conquista o crescimento de quase 30% no empreendedorismo feminino no Brasil nos últimos 10 anos. E é crescente também o número de mulheres que buscam sair da informalidade, sem falar que também tivemos um ganho de rendimento das mulheres que empreendem”, comemora.
Os dados do levantamento do Sebrae apontam que o rendimento médio das empreendedoras goianas cresceu quase 45% em dez anos, chegando a R$ 3.723 mensais em 2025. Ao mesmo tempo, há uma migração gradual para a formalidade. A proporção de mulheres sem CNPJ caiu de 70% em 2016 para 55% em 2025. Esse ambiente favorável ajuda a explicar o desempenho acima da média observado entre as mulheres goianas. “Goiás tem alguns fatores que alavancam o desenvolvimento do empreendedorismo feminino, como a própria economia. É um Estado rico, que movimenta bem sua economia, isso estimula também os pequenos”, avalia Vera Lúcia.
Apesar dos avanços, ainda há desafios importantes no radar. Quase 60% das empreendedoras goianas não contribuem para a previdência, e 38% trabalham dentro de casa, conciliando o negócio com as responsabilidades domésticas. A desigualdade também aparece na renda. É que mesmo mais escolarizadas, as mulheres ainda ganham menos que os homens. A diferença chega a 56% entre empreendedores com ensino superior .
Vera Lúcia enfatiza que reduzir essas barreiras estruturais é um dos focos do Sebrae. “Trabalhamos para dar condições para que essas mulheres empreendam, levando ao conhecimento delas, de forma clara, as possibilidades de linha de crédito, por exemplo. Explicamos que quando ela sai da informalidade, ela tem acesso a essas linhas para alavancar seu negócio. São muitos os benefícios”, explica ao apontar também a inovação como vetor de crescimento. “Oferecemos suporte para que essas empreendedoras adotem modelos baseados na inteligência artificial, por exemplo, para que elas otimizem o tempo com o que realmente deve receber atenção”.
O desempenho feminino está diretamente conectado à força dos pequenos negócios. Em Goiás, eles representam 95% das empresas em atividade e somam cerca de 897 mil empreendimentos, o equivalente a 4% do total nacional. Além disso, são responsáveis por 38% do PIB estadual e por 67% do saldo de empregos formais gerados em 2025. É o que mostra o mais recente Panorama dos Pequenos Negócios, divulgado pelo Sebrae Goiás. Para se ter uma ideia, só no primeiro trimestre de 2026, foram abertas 69.228 empresas em Goiás, destas, 50.763 estão classificadas como microempreendedores individuais (MEI), as microempresas (ME) somaram 14.631, enquanto as empresas de pequeno porte (EPP) totalizaram 2.007, segundo dados do relatório Dinâmica Empresarial, divulgado pelo Sebrae em abril.
Os setores em que as mulheres mais empreendem refletem a própria dinâmica dos pequenos negócios em Goiás. Serviços, alimentação e beleza, que estão entre as atividades econômicas com maior volume de formalização nos últimos meses, concentram a maior parte das iniciativas lideradas por elas. Atividades como cabeleireiros, serviços de estética, alimentação e comércio de vestuário se destacam pela presença expressiva e, mais do que isso, pelo potencial de crescimento e geração de renda. Foi justamente em um dos segmentos em que as mulheres mais empreendem em Goiás que Vânia de Paula decidiu transformar inquietação em oportunidade. Biomédica de formação, ela construiu uma trajetória que, à primeira vista, parecia seguir o roteiro da estabilidade: formou-se em 2000, atuou por cinco anos em uma clínica ligada à cirurgia plástica e, na sequência, ingressou no serviço público após aprovação em dois concursos, um do Estado e outro do município de Goiânia. Mais tarde, assumiu um cargo de gestão, onde permaneceu por 12 anos.
Mas a vocação empreendedora já existia, apenas aguardava o momento de ganhar forma. A virada começou em uma viagem a São Paulo. Foi ali, diante de um quiosque de atendimento rápido para serviço de design de sobrancelhas, sem necessidade de agendamento, que Vânia enxergou um modelo de negócio com potencial para prosperar em Goiás. “Me apaixonei pelo modelo”, resume ao citar que o que para muitos poderia parecer apenas uma observação casual, para ela se transformou em decisão estratégica. De volta a Goiânia, Vânia começou a desenhar o próprio negócio. Sem interesse em seguir o caminho das franquias, buscou construir uma marca autoral e abriu a Dpila, apostando em serviço de depilação e design de sobrancelhas com atendimento sem hora marcada, focado em conveniência e agilidade, conceito ainda pouco explorado à época.
A aposta coincidiu com um momento importante para a própria profissão. Com a autorização para biomédicos realizarem procedimentos minimamente invasivos, Vânia identificou uma nova frente de expansão e decidiu investir em qualificação. Iniciou uma pós-graduação em Estética Avançada e ampliou o escopo do negócio, combinando visão de mercado e atualização técnica, dois elementos que se tornariam decisivos para o crescimento da empresa.
O empreendimento avançou. Veio uma segunda unidade em Goiânia e, quando a pandemia trouxe incertezas para boa parte do mercado, Vânia fez o que costuma distinguir negócios resilientes: se adaptou. “Eu não poderia me deixar abalar. Não era uma opção naquele momento. Eu li o contexto e soube ir acompanhando a tendência”, conta. Enquanto muitos setores encolhiam, a busca por procedimentos estéticos crescia. O fenômeno, impulsionado pela hiperexposição nas telas e pelas chamadas de vídeo, alterou comportamentos de consumo. “As pessoas começaram a se ver com mais frequência nas lives e nas postagens em redes sociais… Muita gente não estava satisfeita com o que via. A clínica começou a ficar cheia e o faturamento triplicou no chamado período de pós-pandemia, durante a retomada das atividades comerciais”, relata.
Foi desse salto que nasceu uma nova fase do negócio, com a criação da VP Saúde Estética. Mais estruturada, a empresa amadureceu, ampliou equipe, diversificou serviços e entrou em um novo ciclo de crescimento. Hoje, com faturamento mais sólido, a clínica reúne oito profissionais e segue em expansão. “Empreender com responsabilidade é algo satisfatório demais. É difícil, desafiador, mas colher os frutos do seu próprio esforço, não tem preço”, enfatiza.
A história de Vânia ajuda a exemplificar, em escala humana, o que as estatísticas revelam sobre o empreendedorismo feminino. É que apesar de ser mais comum, ele não se move apenas por necessidade, mas cada vez mais por visão, inovação e capacidade de identificar oportunidades onde outros enxergam risco. No caso dela, abrir mão da estabilidade de dois concursos públicos para empreender no setor da beleza poderia parecer uma escolha improvável, mas tornou-se, na prática, a decisão que redefiniu sua trajetória.
Para a gestora de empreendedorismo feminino do Sebrae Goiás, Vera Lúcia Oliveira, há uma transformação em curso quando o assunto é o que leva uma pessoa a buscar o próprio negócio. “Ainda existe, claro, um cenário em que muitas mulheres empreendem por necessidade, mas há um outro dado muito importante: 62% das mulheres que empreendem acreditam que podem transformar realidades”, afirma. Segundo ela, essa percepção se reflete na capacidade de criar soluções, promover pequenas inovações e aprimorar o negócio à medida que conhecimento e experiência se acumulam. “Mesmo quando começa por necessidade, à medida que ela vai ganhando conhecimento, consegue fazer adaptações, melhorar processos e ampliar oportunidades”, destaca.
Esse fortalecimento, afirma Vera, tem sido acompanhado por uma atuação mais direcionada do Sebrae para impulsionar tanto setores onde as mulheres já têm presença consolidada quanto novas fronteiras de atuação. Segundo ela, a instituição vem intensificando ações para fortalecer segmentos que historicamente atraem empreendedoras, como o ramo da beleza, com apoio em capacitação, gestão e acesso a mercados. Mas o esforço, segundo a gestora, vai além desse campo. “Também buscamos estimular a entrada das mulheres em setores com maior valor agregado, como engenharia e outras áreas historicamente dominadas por homens”, afirma. A estratégia, segundo Vera, é ampliar horizontes e contribuir para que o empreendedorismo feminino avance também em diversidade, competitividade e ocupação de espaços ainda pouco acessados por mulheres.
É nesse movimento que surgem exemplos como o da SEUVA – Soluções Ambientais, pequeno negócio criado por três sócias que decidiram transformar conhecimento técnico em empreendimento. Em operação desde janeiro de 2025, a empresa nasceu da união de Renata Rodrigues, Gabriela Jacarandá e Luana Viana, profissionais com trajetórias consolidadas na engenharia e na gestão ambiental, que enxergaram no mercado uma oportunidade de atuar em um segmento historicamente masculino, mas com demanda crescente e espaço para inovação.
Fonte: A Redação – https://aredacao.com.br/empreendedorismo-feminino-em-goias-e-a-forca-de-mulheres-que-transformam-desafios-em-desenvolvimento/