Disputa por apoio de prefeitos dá o tom da batalha eleitoral de 2026 em Goiás

Antes mesmo de as convenções partidárias acontecerem, antes dos jingles, dos comícios e do horário eleitoral gratuito, a disputa pelo voto em Goiás já está em curso e ela passa, inevitavelmente, pelo interior do Estado. Pré-candidatos ao governo, ao Senado e às vagas proporcionais percorrem municípios, participam de eventos de associações municipalistas e cultivam relações com lideranças locais com um objetivo claro: chegar às convenções com o maior número possível de prefeitos e vereadores comprometidos.
A dimensão do esforço aparece nos detalhes. Em maio, por exemplo, o MDB do governador Daniel Vilela realizou um megaevento de filiações que reuniu, em um único dia, 5 mil novos membros, incluindo 10 prefeitos e 15 vice-prefeitos vindos de diferentes legendas.
O partido, mesmo com alta demanda de gestores municipais querendo se aproximar do grupo governista, decidiu represar novas adesões para não gerar ruídos com aliados nem acirrar disputas locais dentro da base governista. O cuidado revela o quanto a relação com os municípios é tratada como ativo político sensível — algo a ser gerido com atenção, não apenas celebrado.
Capilaridade
O que um prefeito ou até mesmo um vereador tem que um candidato não tem? A resposta mais simples é: capilaridade. Um pré-candidato ao governo do estado pode ter reconhecimento nas capitais e nas cidades médias, mas dificilmente tem presença real nos 246 municípios goianos — muitos deles com menos de 10 mil habitantes, onde a política se faz no balcão da prefeitura, na porta da escola municipal e no corredor do posto de saúde.
Para a cientista política Carolina Drummond, o apoio municipal fortalece, mas não decide sozinho. “O crescimento das redes sociais, da comunicação digital e da polarização nacional reduziu a capacidade de transferência direta de votos. Hoje, o apoio de um prefeito pode fortalecer uma candidatura, mas dificilmente é suficiente, sozinho, para definir uma eleição”, avalia. A lógica vale para todos os campos: ter prefeitos ao lado abre portas, estrutura campanhas e sinaliza viabilidade — mas não substitui a construção de uma candidatura que dialogue diretamente com o eleitor.
Com as convenções se aproximando e o tempo de campanha oficial ainda escasso, o interior de Goiás segue sendo o principal campo de disputa de 2026 — antes mesmo que os nomes estejam definidos.
“O prefeito conhece o eleitor pelo nome. Sabe quem precisa de emprego, quem tem filho na creche, quem depende do transporte escolar. Essa proximidade cria um vínculo que nenhuma campanha digital consegue replicar com a mesma velocidade. Quando esse prefeito decide apoiar um candidato ao governo, ele não apenas cede sua imagem — cede sua rede, sua estrutura, seus aliados nos bairros e sua credibilidade junto à população local”, avalia Drummond.
Os vereadores ampliam essa equação. Em municípios pequenos, um vereador bem votado pode ter mais influência sobre determinado bairro ou comunidade rural do que qualquer candidato estadual. São eles que mobilizam, que organizam carreatas, que convocam reuniões e que, na reta final da campanha, batem de porta em porta. Não à toa, pré-candidatos ao Senado e à Câmara Federal têm sido explícitos sobre quem buscam primeiro ao sair para o interior: os vereadores — que em eleições passadas frequentemente sustentaram candidaturas sem estrutura partidária formal.
Construção
A construção de apoio nos municípios raramente começa com política. Começa com presença. Prefeitos valorizam candidatos que aparecem fora do calendário eleitoral — que visitam o interior, participam de inaugurações, recebem demandas e articulam recursos federais ou estaduais para seus municípios. A relação é de troca, mas não de coerção: o prefeito que apoia um candidato ao governo espera interlocução direta, acesso a programas estaduais e um canal aberto para resolver os problemas do seu município.
É essa dinâmica que explica por que, nos meses que antecedem as convenções, o interior de Goiás vira um palco de agendas políticas intensas. Pré-candidatos que ainda não podem fazer campanha oficial aparecem em eventos de associações rurais, inaugurações de obras municipais e encontros de lideranças religiosas — todos espaços onde prefeitos e vereadores exercem influência direta sobre sua base.
Alianças
Além da influência direta sobre o eleitor, os prefeitos exercem outro papel estratégico: ajudam a construir e consolidar alianças partidárias. A posição dos prefeitos em relação a determinado candidato ao governo frequentemente orienta a decisão das direções estaduais sobre com quem se aliar. Um partido que tem dez prefeitos apoiando um candidato específico tem argumento concreto para negociar espaço na chapa — seja uma vaga de vice, uma candidatura ao Senado ou posições nas listas proporcionais. O municipalismo, nesse sentido, não é apenas mobilização de base: é moeda de negociação nas mesas onde as chapas são montadas.
Quem melhor ilustra a importância dessa articulação municipal em 2026 é o presidente da Associação Goiana de Municípios (AGM), José Délio, prefeito de Hidrolândia, que percorreu 191 dos 246 municípios goianos apenas neste ano. “A presença de Daniel Vilela no interior, conversando com prefeitos, vereadores e lideranças locais dos vários setores da sociedade, está fazendo a diferença”, afirmou. A avaliação de Délio, que é também um dos principais articuladores da pré-campanha de reeleição do governador, é de que esse trabalho de base já se reflete nas pesquisas informais que colhe nas visitas. “Posso atestar: Daniel Vilela vai ganhar no primeiro turno. Podem me cobrar depois”, disse o dirigente municipalista — declaração que carrega o entusiasmo de um aliado declarado, mas revela a leitura que o campo governista faz do tabuleiro municipal.
A movimentação, porém, não é exclusiva de um campo. Partidos de oposição e pré-candidatos sem a estrutura do grupo governista têm apostado em encontros regionais para tentar construir sua própria base municipal. A estratégia consiste em reunir prefeitos, vice-prefeitos e vereadores de microrregiões em eventos que misturam agenda política e articulação programática — uma forma de criar vínculos com lideranças locais que, de outra forma, dificilmente seriam alcançadas por uma campanha centralizada na capital. O objetivo é o mesmo de sempre: quando as convenções chegarem, ter nomes comprometidos espalhados pelo interior — não apenas simpatizantes, mas aliados dispostos a trabalhar ativamente pela candidatura em seus municípios.
Na estrada
Quem disputa uma vaga majoritária em 2026 já tirou essa conclusão — e está agindo de acordo. O ex-prefeito de Aparecida de Goiânia Gustavo Mendanha, pré-candidato ao Senado, tem percorrido o estado intensamente nos últimos meses em busca exatamente dessas lideranças. “Os próximos 30, 40 dias devo andar em Goiás, quero conversar com as pessoas”, disse.
O foco declarado são os vereadores — os mesmos que, segundo ele, sustentaram sua candidatura ao governo em 2022 mesmo sem estrutura partidária formal. “Praticamente não tinha estrutura partidária, e foram esses líderes que me ajudaram”, lembrou.
Para Mendanha, o apoio dessas lideranças em uma disputa majoritária concorrida pode fazer diferença real. Prefeitos e vereadores têm algo que campanhas digitais não conseguem comprar: capilaridade eleitoral construída na relação direta com o eleitor. Numa disputa acirrada, em que poucos pontos percentuais separam os candidatos, é esse tecido fino de relações locais que pode inclinar a balança.
Em muitos municípios goianos, prefeitos que integravam a base estadual viram seus eleitores votar de forma diferente de sua orientação. A polarização nacional sobrepôs a lógica local em boa parte das urnas.
Na disputa pelo governo contra Daniel Vilela, o ex-governador Marconi Perillo é outra figura que tem buscado caminho semelhante. Perillo tem percorrido diferentes cidades em uma agenda denominada Avança Goiás e parte dela é dedicada a um diálogo com lideranças políticas, comunitárias e moradores.
“Eu estou visitando todas as cidades goianas, reunindo com lideranças populares e ouvindo as pessoas para preparar o plano de governo. Em cada cidade, procuro ouvir duas ou três demandas principais que serão prioridades”, afirmou.
Fonte: A Redação – https://aredacao.com.br/disputa-por-apoio-de-prefeitos-da-o-tom-da-batalha-eleitoral-de-2026-em-goias/