POLÍCIA

A influência da Meta nas eleições brasileiras sob a ótica da soberania digital

A atuação da Meta, empresa controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, tornou-se o centro de um intenso debate sobre a integridade do processo eleitoral brasileiro. Denúncias recentes apontam para uma disparidade na moderação de conteúdos, com usuários relatando remoções e restrições de alcance em perfis de esquerda, enquanto contas alinhadas à direita desfrutam de maior visibilidade e sugestões automáticas. O caso, que chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por meio de uma representação formal da campanha do presidente Lula, levanta questionamentos profundos sobre o poder das plataformas digitais na política contemporânea.

Interesses estratégicos e a postura da Meta

Para especialistas, a intervenção das big techs no cenário político não é um evento isolado, mas parte de uma estratégia global. Após a vitória de Donald Trump em um segundo mandato nos Estados Unidos, Mark Zuckerberg sinalizou uma mudança de paradigma corporativo. A convergência entre os interesses dessas plataformas e a extrema-direita norte-americana tem se tornado explícita, refletindo a visão de mundo de seus fundadores, que operam suas empresas de maneira centralizada e verticalizada.

A obsessão pessoal de Zuckerberg por figuras de poder, como o imperador romano, é frequentemente citada como um traço de sua personalidade que se traduz na gestão autocrática de seus negócios. Essa cultura organizacional, avessa a mecanismos democráticos de controle, coloca a Meta em uma posição de influência direta sobre o fluxo de informações, tornando a auditoria pública de seus algoritmos um desafio técnico e jurídico quase intransponível para o Estado brasileiro.

Limites da regulação e o poder das caixas-pretas

A dificuldade em fiscalizar a Meta reside na natureza opaca de suas operações. As plataformas funcionam como “caixas-pretas” sob soberania privada, onde os dados e procedimentos internos permanecem inacessíveis ao Poder Público. Mesmo com a atuação do TSE, a Justiça Eleitoral enfrenta limitações estruturais para identificar ou punir interferências ocultas que ocorrem no nível algorítmico, onde a manipulação do alcance pode ser sutil e de difícil comprovação técnica.

Essa assimetria de poder é agravada pela dependência tecnológica e pela expansão desenfreada dessas empresas desde a bolha dotcom de 2001. Ao operarem sem regulação efetiva e com práticas anticoncorrenciais, as big techs consolidaram mercados consumidores bilionários no Sul Global, incluindo o Brasil. A oferta de pacotes de dados gratuitos para aplicativos, por exemplo, desafia o princípio da neutralidade de rede previsto no Marco Civil da Internet.

Ameaça existencial e a disputa por hegemonia

O comportamento das gigantes da tecnologia pode ser interpretado como uma reação a ameaças existenciais. Pela primeira vez em décadas, essas empresas enfrentam a concorrência da China e a escassez de recursos naturais necessários para a corrida da inteligência artificial. A radicalização política surge, portanto, como uma ferramenta para garantir a sobrevivência de um modelo de negócio em vias de esgotamento.

A estratégia de reposicionamento dos EUA como hegemon hemisférico, defendida por aliados de Trump, oferece às big techs o ambiente necessário para expandir seu “espaço vital” na América Latina. A conquista do Brasil, com a extração de recursos como água, minério e energia, torna-se um ponto de virada estratégico. Nesse contexto, a intervenção algorítmica em eleições locais é vista como um custo operacional mínimo para assegurar o controle sobre territórios essenciais para a manutenção de seu império global.

Fonte: cartacapital.com.br

Botão Voltar ao topo