POLÍCIA

Turismo de onças no Pantanal: entre a conservação e o limite da exploração

No coração do Pantanal, a rotina de guias como Oscar de Morais reflete uma mudança profunda na economia da região. Há mais de duas décadas atuando em Porto Jofre, Mato Grosso, o antigo pescador trocou a captura de peixes pela condução de turistas em busca da onça-pintada. O que antes era uma atividade de subsistência transformou-se em uma engrenagem complexa que movimenta milhões de dólares e atrai visitantes de todo o mundo, consolidando o felino como o principal ativo turístico do bioma.

A transformação do ecoturismo em Porto Jofre

A dinâmica de observação evoluiu significativamente desde o início dos anos 2000. Hoje, o trabalho de pilotos como Oscar é auxiliado por redes de comunicação via rádio e guias de identificação que utilizam as rosetas — manchas únicas de cada animal — para catalogar os espécimes. Projetos como o Jaguar ID desempenham um papel fundamental, permitindo que cada onça seja reconhecida individualmente, o que fortalece o vínculo entre o turismo e a conservação da espécie.

O impacto financeiro dessa atividade é expressivo. Estudos indicam que o turismo de observação gera receitas muito superiores aos prejuízos causados por ataques de onças ao gado, criando um incentivo econômico para a preservação. No entanto, essa valorização trouxe consigo um aumento expressivo no número de barcos que cercam os animais, levantando debates sobre a capacidade de suporte do ecossistema e o estresse causado pela presença humana constante.

Desafios globais e o impacto da presença humana

O dilema vivido no Pantanal ecoa preocupações globais sobre a indústria de safáris. Assim como ocorre em destinos africanos como o Maasai Mara, o crescimento desordenado da infraestrutura turística e a aglomeração de veículos ao redor da vida selvagem podem alterar comportamentos naturais, como a caça e o cuidado com os filhotes. Pesquisas científicas, como as publicadas na Scientific Reports, apontam que a habituação das onças à presença humana cresceu 400% na última década, exigindo uma reflexão sobre a necessidade de regulamentação e cotas de visitantes.

Tecnologia e novos horizontes na região

A atração exercida pelo Pantanal também tem atraído profissionais de diversas áreas, que buscam integrar tecnologia ao ecoturismo. Empreendedores como Karlos Marden, que retornou ao Brasil após anos no exterior, estão aplicando inteligência artificial para otimizar a gestão de pousadas e desenvolver aplicativos de identificação de fauna. Esse movimento de modernização tenta equilibrar a alta demanda de turistas estrangeiros com a preservação da integridade ambiental do território.

Enquanto a tecnologia avança, a memória do Pantanal permanece viva, lembrando os tempos em que a relação entre o homem e a onça era marcada pela caça e pelo medo, como imortalizado por João Guimarães Rosa. O desafio atual é garantir que a “galinha de ouro” do turismo pantaneiro continue a prosperar sem que a busca pela foto perfeita comprometa a sobrevivência do maior felino das Américas.

Fonte: cartacapital.com.br

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