Avatares e votos: a inteligência artificial entra na disputa eleitoral de 2026

Dona Maria tem cabelos brancos, voz pausada e um jeito de falar que lembra avó. Aparece em vídeo dizendo que finalmente encontrou um candidato em quem pode confiar, que os filhos não entendem, mas ela sabe o que é certo. O problema é que Dona Maria não existe. É um avatar sintético gerado por inteligência artificial, com rosto fabricado, voz clonada e discurso calculado para acionar o emocional de quem a assiste. Uma personagem construída para parecer real e persuadir de verdade. Com o primeiro turno das eleições marcado para 4 de outubro, casos como esse já antecipam o campo de batalha em que a democracia brasileira vai operar nos próximos meses.
A disputa de 2026 não será travada apenas entre candidatos, programas e projetos. Será também entre eleitores reais e personagens sintéticos projetados para parecer mais humanos do que os próprios humanos. A Justiça Eleitoral avançou na regulação. Mas a velocidade da tecnologia ainda corre na frente.
O eleitor imaginário como arma política
A técnica por trás da Dona Maria não é nova, mas chegou a um nível de sofisticação que torna a identificação quase impossível para o usuário comum. Modelos de inteligência artificial generativa são capazes hoje de criar rostos que nunca existiram, clonar vozes a partir de poucos segundos de áudio e sincronizar movimentos labiais com precisão fotorrealista. O que muda no ciclo eleitoral de 2026 não é a existência dessas ferramentas, é a democratização do acesso a elas e, sobretudo, o seu uso estratégico como instrumento de persuasão política.
O perfil da Dona Maria não foi escolhido por acaso. Mulher idosa, aparência simples, linguagem afetiva…O avatar foi desenhado para alcançar um segmento específico do eleitorado, aquele que a pesquisa comportamental identifica como mais suscetível a apelos emocionais e à autoridade de figuras próximas. Não é propaganda política convencional. É engenharia de percepção.
“Há poucos anos, produzir um conteúdo sintético convincente exigia equipamento caro e conhecimento técnico especializado. Hoje qualquer pessoa com um celular mediano e acesso à internet consegue gerar um vídeo hiper-realista em minutos. Isso muda completamente a escala do problema”, avalia Rafael Menezes, especialista em segurança digital e inteligência artificial.
Os dados confirmam a preocupação. A disseminação de conteúdos falsos criados com IA cresceu 308% entre 2024 e 2025, passando de 39 para 159 casos identificados pelo Observatório Lupa. Mais relevante do que o volume é a mudança de perfil: se antes a tecnologia era utilizada principalmente em golpes financeiros, agora passou a ser empregada sobretudo na desinformação política. Cerca de 45% dos conteúdos analisados tinham viés ideológico, enquanto mais de 75% exploravam imagem ou voz de figuras públicas.
Fonte: A Redação – https://aredacao.com.br/avatares-e-votos-a-inteligencia-artificial-entra-na-disputa-eleitoral-de-2026/