Com amor, do Cerrado: empreendedora goiana cria linha de cosméticos naturais em homenagem à mãe com câncer

Cinco anos: esse é o tempo médio que o baruzeiro e o pequizeiro levam para produzir os possivelmente mais famosos frutos do Cerrado goiano. Nesse mesmo prazo, uma moradora de Anápolis, a 59 km de Goiânia, conseguiu desenvolver, licenciar e levar às prateleiras cosméticos naturais orgânicos e veganos feitos à base de baru e pequi. O objetivo da iniciativa: poupar a pele dos consumidores do contato com elementos químicos presentes em produtos de beleza e skincare convencionais. A preocupação não é sem motivo.
Há seis anos, a psicóloga Eleuza Carniello Ferreira, de 74 anos, tomou um dos maiores sustos da vida ao ser diagnosticada com câncer de língua. O espanto foi ainda maior diante das explicações do médico de que “esse tipo de câncer é fortemente associado ao consumo de álcool e tabaco”, afinal, Eleuza nunca fez uso de nenhuma das substâncias. O profissional então acrescentou outra possível causa: o uso de produtos de beleza que em décadas passadas continham grande quantidade de chumbo, um metal altamente tóxico.
A hipótese fez todo sentido para Weiky Carniello Viega, 44. “Minha mãe usou muito aqueles batons que foram febre nos anos 80, que vinham do Paraguai e deixavam a boca vermelhona por um tempão”, conta. E foi assim, em meio ao medo pela descoberta da grave doença que acometia a mãe, que a administradora mestra em Biotecnologia com estudos no Cerrado teve a coragem de ousar: “Por que não desenvolver cosméticos orgânicos aproveitando a riqueza da nossa flora e deixando de lado os componentes químicos?”, indagou-se.
Procurado, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) endossou a empreendedora que nascia ali naquela inquietação: “Isso mesmo, Weiky! Por que não?”. O Sebrae Goiás entrou em cena para ajudar a plantar a semente crente no potencial da colheita. “Como eu não tinha capital, não tinha nem ideia por onde começar, eles me falaram que tinham as incubadoras, incubadoras de startups. Aí eu fui pra UniEvangélica, em Anápolis, apresentei minha ideia e a gente ficou incubado dentro da universidade”, relembra.
Na incubadora o projeto ganhou o apoio de uma equipe com conhecimento em diferentes áreas, como Farmácia e Medicina, para preparar as fórmulas; e Direito, para abrir a empresa. “Com a Finep, que é federal, e Fapeg, que é estadual, a gente levantou 1 milhão e 300 mil reais de projetos de fundo perdido e com esse dinheiro a gente construiu nosso laboratório, o Creio Lab. Até uns dois meses atrás a gente fazia tudo manual, agora a gente já conseguiu comprar uma envasadora que envasa 1.500 unidades por hora”, comemora.
O laboratório já tem registradas duas marcas: a Pequi Power, que engloba um hidratante labial e uma pomada massageadora para alívio de dores musculares feita com o óleo do pequi; e a Ton Ton Glow, que compreende um alinha de skincare e maquiagens com ativos de outros frutos do Cerrado, como o gloss de baru. “Não, o gloss não tem gosto de baru e o hidratante e o bálsamo não têm cheiro de pequi, mas os benefícios dos frutos estão presentes nos produtos. E é tudo comprovado cientificamente, senão a Anvisa não libera”, explica Weiky.
O gloss de baru (foto: Jucimar de Sousa/A Redação)
“O pequi tem propriedade anti-inflamatória. Há relatos do uso da nossa pomada combinada com fisioterapia reduzindo em até 50% o tempo de tratamento de dores musculares. Já o baru é antioxidante, então ajuda na hidratação e também ameniza linhas finas”, afirma a CEO da Creio Lab. “E em breve chega ao mercado o batom de baru, em 12 cores diferentes. Minha mãe, a dona Eleuza, é uma das testadoras. Ela venceu a batalha contra o câncer; está feliz e com o sorriso mais lindo do que nunca”, diz, emocionada
Reconhecimento
“Como mãe, sinto um orgulho muito grande da minha filha ter transformado dor em propósito. Ver ela criar uma marca de cosméticos naturais pensando no bem-estar, no cuidado e na saúde das pessoas me emociona profundamente. Saber que essa jornada também nasceu do desejo de proteger e cuidar de mim me deixa honrada e feliz. Mostra o coração e a sensibilidade que a Weiky tem. Acredito que quando um produto é criado com amor, ciência e propósito, ele carrega algo especial”, afirma Eleuza Carniello.
Além da gratidão materna, Weiky também conquistou reconhecimento nacional ao vencer diversas premiações de inovação e empreendedorismo. Uma delas foi o Mulheres de Negócios do Sebrae, no ano passado. “A gente conquistou o primeiro lugar em Goiás, o primeiro lugar no Centro-Oeste e, no nacional, concorrendo com 7.500 mulheres incríveis, a gente ficou em terceiro lugar. Então é motivo de muito orgulho. A gente quer levantar essa bandeira: Goiás não é só Agro, temos muito mais a oferecer”, destaca a mestra em Biotecnologia.
O bálsamo de pequi (foto: Jucimar de Sousa/A Redação)
Weiky faz parte de um universo de 374 mil mulheres empreendedoras atuando no estado, segundo estudo do Sebrae. “As empreendedoras goianas têm, em média, 43 anos; 53% são chefes de família e 45% são formalizadas. Ainda há um grande horizonte de formalização pela frente de modo a ampliar parcerias, obtenção de recursos e o próprio faturamento das empresas. Mas considerando que dez anos atrás o percentual era de 30% de mulheres formalizadas, estamos avançando”, pontua a analista do Sebrae Goiás Gleice Melo.
O Sebrae estimula a união das mulheres empreendedoras em uma rede de compartilhamento de conhecimentos, contatos e negócios, para que cresçam juntas. Além disso, oferece mentorias com abordagem específica para o empreendedorismo feminino. “O machismo persiste na nossa sociedade, infelizmente, e nós sabemos que muitas mulheres têm problemas com relação à autoconfiança e posicionamento como protagonista do seu negócio. A gente trabalha justamente essa autonomia visando formar grandes líderes”, explica Gleice.
Apesar de ter em casa o exemplo do pai empreendedor, no ramo da construção civil, foi no Sebrae que Weiky desenvolveu as competências necessárias para começar sua própria empresa. Cinco anos depois, ela segue aliada à entidade em busca de aprimoramento: participa atualmente de uma mentoria sobre a indústria de cosméticos. “A gente ficou muito tempo na parte acadêmica, criando as fórmulas dos produtos. Agora, é hora de focar na parte comercial, nas vendas. Já estamos estruturados para isso”, avalia.
Gleice Melo (foto: Jucimar de Sousa/A Redação)
A anapolina compara o Sebrae com uma mãe que quer o melhor para os filhos. “O Sebrae pega a gente pela mão, aponta as falhas e conduz pelo caminho correto. A gente não estaria aqui hoje se não fosse o pessoal orientando, ensinando, dando dicas importantíssimas em todas as fases. Eu sempre busco estar do lado de gente que sabe mais do que eu, acho que esse é o caminho do sucesso. Às vezes uma simples conversa com um professor, com um pesquisador, com outro empreendedor já ilumina o caminho”, conclui.
Valorizando o que é nosso
Pequi, baru, mamacadela, buriti, copaíba… A matéria-prima para os produtos do Creio Lab vem do Cerrado, ou, como dizem os estrangeiros, da “brazilian savanna”. Weiky morou oito anos na Inglaterra e confessa que se surpreendeu com o valor atribuído aos nossos recursos naturais lá fora. “Os europeus valorizam mais nosso bioma que os próprios brasileiros. Por isso colocamos assim na embalagem da pomada Pequi Power: Fabriqué au Brésil. Isso para mostrar para os franceses: aqui é Brasil, viu!”, diverte-se Weiky.
De fato, chama a atenção a procura internacional pelos cosméticos naturais, principalmente por parte de países como Estados Unidos, Chile e a própria Inglaterra. As compras são feitas pelo Tik Tok e pelo e-commerce. O bálsamo Pequi Power é vendido por R$ 80,00 e o gloss de baru Ton Ton custa R$ 65,00. Weiky garante que sai barato no fim das contas. “Enquanto a maioria dos produtos do mercado têm até 70% de água na composição, o nosso aposta numa fórmula diferente, superconcentrada. É baru e pequi mesmo, sem dó”, atesta.
A empresa de Weiky está prestes a escalonar a produção para começar a lucrar com mais força, mas muitos produtores goianos já vêm fazendo renda com o negócio. “Hoje, 96% dos insumos que compramos são daqui de Goiás, da agricultura familiar e do extrativismo. A gente mapeou o estado em busca de matérias-primas. Dentre nossos fornecedores, temos produtores de pequi e catadores de baru de Pirenópolis e Mineiros, por exemplo. E como a gente faz uso do chamado patrimônio genético, tudo é registrado no Ibama, a cadeia é rastreável”, destaca.
Weiky com seus produtos (Foto: Jucimar de Sousa/A Redação)
A bioetech, que produz bens a partir de recursos biológicos e renováveis, também acaba resgatando conhecimentos tradicionais, valorizando a cultura local e criando um sentimento de pertencimento. “Muita gente não sabe, mas nossos antepassados, principalmente aqui da região de Goiás, já usavam o óleo do pequi com a finalidade de tratar dores. Nós acrescentamos a isso ciência, tecnologia e consciência ambiental, e colocamos em embalagens recicláveis. Tudo isso com zero testes em animais”, diz Weiky orgulhosa.
Para o analista técnico e gestor de projetos do projeto Goiás Original, do Sebrae, Gustavo Toledo, a sustentabilidade deixou de ser uma mera pauta ambiental e virou estratégia de negócio. “Os pequenos negócios que aprendem a usar melhor os recursos, reduzir desperdícios, valorizar o território e comunicar sua origem, eles conseguem ser mais competitivos, mais eficientes e mais conectados com esse novo consumidor. O Sebrae trabalha para mostrar ao empreendedor que ser sustentável não é ser mais caro, muitas vezes é ser mais inteligente, mais produtivo e mais preparado para o futuro”, afirma Toledo.
Gustavo Toledo (foto: Jucimar de Sousa/A Redação)
Fazendo a diferença
Quando voltou da Inglaterra para o Brasil, Weiky foi trabalhar na empresa do pai, em Anápolis. Mas o câncer da mãe a fez mudar totalmente de rota. De repente estava às voltas com os desafios que envolvem erguer do zero uma indústria de cosméticos. O marido, Amaurilho Viega, formado em Direito, embarcou junto na jornada e se tornou estudante de química. Aos sócios-fundadores juntaram-se outras cinco pessoas, dentre químicas, farmacêuticas e profissionais de gestão. Assim estruturou-se o Creio Lab.
“Nós somos pequenos, mas temos as mesmas obrigações que os gigantes do ramo dos cosméticos. A responsabilidade é enorme. Temos muitas outras ideias de produtos em mente, algumas já avançando na escada das 12 licenças necessárias até chegar à comercialização. Mas tudo isso leva tempo. A licença da Anvisa mesmo exige muitos estudos científicos. Universidades como a Federal de Goiás, UnB, Universidade do Ceará e Instituto Federal do Paraná têm nos ajudado muito com as pesquisas”, reconhece Weiky.
Um laboratório pequeno com equipe enxuta também leva mais tempo para acertar nas fórmulas dos produtos. “Tem produto nosso que exigiu 280 formulações para chegar no ponto certo. Fazer cosmético e produto de beleza natural é bem mais difícil do que os sintéticos. No sintético você controla as moléculas com muito mais facilidade. Sem contar que enfrentamos ainda a questão da sazonalidade e até da cor dos frutos. Uma safra de pequi pode vir com a cor do óleo diferente e isso reflete na cor do hidratante labial e do balm”, explica.
Nada disso, porém, desanima a empreendedora. “Eu tenho total confiança no nosso trabalho e no nosso propósito. Não é ‘só mais um cosmético’. Você não precisa lançar ‘mais um batom’, olha o tanto de batom que já tem no mercado. Nós estamos fazendo a diferença, estamos inovando e levando opção de qualidade para os consumidores. Tudo isso, ao mesmo tempo, celebrando o nosso Cerrado. O baru não vai pintar só o sorriso da minha mãe, não. Logo mais, vai estar na boca do povo, no Brasil e no mundo!”, diz Weiky, otimista com o futuro.