Zuenir Ventura morre aos 95 anos e deixa legado fundamental para o jornalismo brasileiro
O jornalismo brasileiro perdeu nesta terça-feira, 22, uma de suas figuras mais emblemáticas. Zuenir Ventura, jornalista, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), faleceu aos 95 anos. A notícia, confirmada por seus familiares, encerra uma trajetória de mais de seis décadas dedicada à observação crítica da sociedade e ao registro minucioso da história recente do país.
Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais, Zuenir trilhou um caminho marcado pela curiosidade intelectual e pelo compromisso com a apuração rigorosa. Desde cedo, conciliou o trabalho braçal com o desejo de aprender, trajetória que o levou a cursar Letras Neolatinas na Universidade do Brasil, atual UFRJ, onde teve o privilégio de ser aluno de nomes como Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima.
A transição do arquivo para a linha de frente da reportagem
A carreira de Zuenir nas redações começou de forma inusitada em 1960. Enquanto atuava como arquivista no jornal Tribuna da Imprensa, ele se voluntariou para redigir um artigo sobre o falecimento do filósofo Albert Camus. O texto bem-sucedido abriu as portas para uma carreira que o levaria a cargos de comando em veículos influentes, como o Correio da Manhã, a revista Fatos & Fotos e a sucursal carioca da Visão.
Mesmo ocupando posições de chefia, Zuenir nunca abandonou a essência da profissão: a reportagem de campo. Ele defendia que o contato direto com as fontes era insubstituível. Em entrevista à Abraji em 2008, o jornalista reafirmou sua convicção ao declarar que nada substitui o “olho no olho” no exercício da apuração jornalística.
O olhar atento sobre a ditadura e o ano de 1968
A vivência pessoal de Zuenir durante o regime militar, período em que chegou a ser preso após a decretação do AI-5, serviu de base para uma de suas obras mais célebres: 1968 — O ano que não terminou, lançado em 1988. O livro tornou-se uma referência indispensável para compreender o endurecimento da ditadura e os movimentos culturais da época, inspirando inclusive a minissérie Anos Rebeldes.
O autor retornou ao tema décadas depois com 1968: O que fizemos de nós, publicado em 2008. Nesta obra, Zuenir estabeleceu um diálogo entre os ideais da geração de 68 e as transformações comportamentais dos jovens no início do século XXI, mantendo viva a reflexão sobre o impacto daquele período na formação da identidade brasileira.
Compromisso com questões sociais e a desigualdade
A partir da década de 1980, o trabalho de Zuenir Ventura ganhou um forte viés de denúncia social. Sua série de reportagens sobre o assassinato de Chico Mendes, publicada no Jornal do Brasil, foi reconhecida com os prêmios Esso e Vladimir Herzog, sendo posteriormente compilada no livro Chico Mendes — Crime e castigo.
Outro marco de sua carreira foi a publicação de Cidade partida, em 1994. O livro mergulhou na realidade de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, após uma trágica chacina. Ao frequentar a comunidade e conviver com os moradores, Zuenir produziu um retrato sensível e necessário sobre a violência e a desigualdade, consolidando seu papel como um dos cronistas mais atentos do Brasil.
Consolidação na Academia Brasileira de Letras
A partir de 1999, Zuenir passou a assinar uma coluna semanal no jornal O Globo, onde manteve sua produção intelectual ativa até os últimos anos. Sua trajetória foi coroada em 2014 com a eleição para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira que pertenceu a Ariano Suassuna. Ele deixa a esposa, Mary Ventura, e os filhos Mauro e Elisa Ventura.
Fonte: jornalopcao.com.br