A trajetória de Aldir Blanc: entre a crônica, o samba e a boemia carioca
A gênese de uma parceria histórica na música brasileira
A história de um dos maiores letristas do Brasil começou de forma inusitada em 1970, em um bar de Ouro Preto. Foi ali que Pedro Lourenço Gomes conheceu um estudante de engenharia que dedilhava melodias sem letra ao violão. Ao perceber o potencial daquela batida singular, Gomes apresentou o músico a seu colega de estudos de psiquiatria, Aldir Blanc. O compositor, que inicialmente tratou a sugestão como uma conversa informal de botequim, logo se tornaria o parceiro indispensável de João Bosco.
A colaboração entre ambos consolidou-se em Ponte Nova, cidade natal de Bosco. Segundo relatos, a parceria floresceu em torno de uma mesa com espaguete à bolonhesa, resultando em composições icônicas como Agnus Sei, Bala com Bala e Angra. Aldir Blanc, definido por Dorival Caymmi como um “ourives da palavra”, desenvolveu um método rigoroso: ele esperava a música estar pronta para, então, perseguir nota por nota, encaixando sílabas com uma precisão cirúrgica até que a letra estivesse madura.
Da medicina à crônica: a transição para a vida artística
Embora formado em medicina em 1971, com consultório na Rua da Assembleia, no Centro do Rio de Janeiro, Aldir Blanc sentia que a prática clínica não era o seu destino. O compositor admitia abertamente sua dificuldade em cobrar pelos atendimentos e descrevia sua saída da profissão como um processo de acúmulo que culminou em uma ruptura definitiva. O evento decisivo ocorreu em 1974, após a perda prematura de suas filhas gêmeas, Maria e Alexandra, o que o afastou permanentemente da psiquiatria.
A transição para a literatura e a música foi alimentada por suas memórias de infância na Rua dos Artistas, em Vila Isabel. Criado pelo avô português, Antônio Aguiar, Aldir absorveu a cultura dos almoços de domingo e a boemia carioca, elementos que moldaram seu temperamento sardônico. Personagens como Esmeraldo Simpatia-É-Quase-Amor e Lindauro ganharam vida em suas obras literárias, como Rua dos Artistas e Arredores (1978) e Porta de Tinturaria (1981), eternizando o cotidiano dos bares que frequentava.
O papel da boemia e a resistência sob a censura
Para Aldir Blanc, o bar era o verdadeiro centro da civilização, um espaço de troca e inspiração. Ele desprezava a sofisticação gastronômica em favor dos “pés sujos”, onde o papo era a atração principal. Essa vivência boêmia, marcada pelo consumo de cerveja e pelo convívio com figuras peculiares, serviu de combustível para sua criatividade. Mesmo em momentos de delírio ou sob pressão, sua capacidade de transformar o cotidiano em arte permanecia intacta.
Sua atuação como compositor também enfrentou os desafios da censura durante a ditadura militar. Um exemplo notável foi a criação de O Mestre-Sala dos Mares, uma homenagem ao líder da Revolta da Chibata, João Cândido. Após ter a letra original censurada, Aldir utilizou elementos surrealistas para contornar as restrições impostas pelo regime, transformando a canção em um sucesso imortal na voz de Elis Regina. A mesma parceria com João Bosco gerou O Bêbado e a Equilibrista, que se tornou o hino da Anistia no Brasil.
O legado de um mestre da palavra
Nos anos finais de sua vida, Aldir Blanc viveu recluso em seu apartamento, cercado por uma vasta biblioteca. Um acidente em 1991 e o diagnóstico de diabetes em 2010 limitaram sua mobilidade e o consumo de álcool, mas não diminuíram sua produção intelectual. O compositor faleceu em 4 de maio de 2020, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, após complicações decorrentes da Covid-19, deixando uma lacuna irreparável na cultura nacional.
A memória de sua obra é revisitada em documentários como Aldir Blanc – Resposta ao Tempo e Fui Olhar Você Dormir, que estreiam no Festival do Rio. João Bosco, em um gesto de respeito e saudade, reafirmou seu compromisso de manter vivo o espírito do parceiro através da música. Como o próprio Aldir registrou antes de sua última entrevista em 2019, ao ser questionado sobre um epitáfio: “Faltou quase tudo”. A história completa pode ser conferida em fontes como a Folha de S. Paulo.
Fonte: cartacapital.com.br