A política de salvação e os riscos do ativismo judicial no Brasil
O debate político brasileiro é frequentemente atravessado por uma visão pessimista das instituições, que rotula o país como intrinsecamente avesso à democracia moderna. Essa narrativa, alimentada tanto por setores intelectuais quanto pelo senso comum, cria um terreno fértil para lideranças de perfil salvacionista. Ao prometerem uma ruptura radical com o sistema vigente, esses atores buscam legitimar soluções que, muitas vezes, contornam os ritos democráticos tradicionais em nome de uma suposta regeneração moral.
A ascensão do protagonismo judicial na política nacional
Historicamente, o Brasil viu diferentes grupos tentarem ocupar o papel de salvadores da pátria, desde militares até jornalistas e economistas. Nas últimas duas décadas, contudo, observou-se uma mudança significativa: a centralidade do Judiciário e do Ministério Público como vetores de reforma social. Esse fenômeno, que ganhou tração com o julgamento do mensalão, encontrou seu ápice na Operação Lava Jato.
Sob a condução de Sergio Moro, a estratégia de investigação e julgamento foi utilizada para pautar o debate público, contando com o apoio de uma mídia ávida por protagonismos. A simplificação de problemas complexos sob a ótica da corrupção endêmica permitiu a mobilização de diversos setores da sociedade, transformando o juiz de primeira instância em um ator político decisivo nas eleições presidenciais.
O papel de André Mendonça no cenário atual
Atualmente, o ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, parece seguir uma trajetória que ecoa métodos de intervenção política através do Judiciário. Diferente de outros magistrados, a atuação de Mendonça é vista por analistas como intrinsecamente ligada ao bolsonarismo, dada sua origem como Advogado-Geral da União e sua indicação ao STF sob o rótulo de perfil “terrivelmente evangélico”.
A parcialidade atribuída a Mendonça, segundo a análise de Jorge Chaloub, não representa um desvio de conduta isolado, mas uma característica inerente à sua postura salvacionista. Ao utilizar o cargo para intervir no tempo e no conteúdo do debate público, o ministro reforça a ideia de que a política deve ser reduzida a uma disputa moral, onde a corrupção é identificada seletivamente para favorecer determinados projetos de poder.
Desafios para a democracia e a responsabilidade da mídia
A redução da política ao campo da moralidade individual é funcional para os interesses daqueles que buscam a desestabilização da ordem democrática. Quando o debate público é pautado pela premissa de que todos os atores são igualmente corruptos, abre-se espaço para o surgimento de figuras que se apresentam como defensores da ordem, mas que, na prática, corroem as instituições que prometem proteger.
Superar esse cenário exige, segundo especialistas, uma postura crítica que evite a espetacularização dos escândalos. É fundamental que a imprensa e a sociedade civil reduzam a visibilidade de projetos salvacionistas, tratando-os como parte de um problema estrutural e não como soluções legítimas. A resistência aos encantos do populismo judicial é, hoje, um dos maiores desafios para a manutenção de uma democracia digna do nome, conforme aponta a CartaCapital.
Fonte: cartacapital.com.br