Barolo supera crise do metanol e atrai investimentos milionários no Piemonte
Nas colinas do Piemonte durante a década de 1980, ônibus corporativos apelidados de “Super Crema” recolhiam diariamente a juventude local para trabalhar na fábrica de chocolates da Ferrero, em Alba. Outra parcela expressiva dos trabalhadores tomava a estrada para Turim rumo às montadoras da Fiat. Naquele período, as vinhas enfrentavam forte desvalorização e uma debandada de mão de obra que colocava em xeque o futuro das propriedades rurais tradicionais.
A crise do setor agravou-se de forma dramática em março de 1986, quando garrafas de vinho adulteradas com metanol pela cantina Ciravegna provocaram 23 mortes e intoxicaram 153 pessoas, segundo a publicação Gambero Rosso. O episódio gerou condenações judiciais e colocou a produção piemontesa sob desconfiança internacional, abrindo espaço para anos consecutivos de colheitas prejudicadas por chuvas intensas entre 1991 e 1994, que abalaram as safras de Barolo.
Herança real e os anos sob intervenção bancária
A recuperação dessa área vinícola apoia-se em raízes que remontam ao século XIX. A histórica vinícola Fontanafredda, em Serralunga d’Alba, foi estabelecida em 1858 pelo rei Vittorio Emanuele II nas terras registradas para os filhos que teve com Rosa Vercellana, a Bela Rosin. A propriedade chegou a ter infraestrutura completa para centenas de operários, com direito a escola e padaria comunitária, antes de encarar as perturbações da Primeira Guerra Mundial e declarar falência em 1930.
Em 1932, a instituição bancária Monte dei Paschi di Siena tomou o controle da propriedade para saldar dívidas. Sob a condução do banco, os melhores vinhedos começaram a ser vinificados separadamente a partir de 1964. Nesse contexto, o produtor Bruno Giacosa atuou de maneira estratégica, intermediando a compra de uvas de pequenos agricultores e garantindo que os negócios continuassem girando mesmo nas safras em que a procura de mercado caía abruptamente.
Reestruturação de mercado e blindagem da uva Nebbiolo
Apesar de pressões comerciais nas décadas finais do século XX para permitir cortes com castas mais suaves como a Barbera para agradar paladares internacionais, os produtores decidiram manter a exigência de usar exclusivamente a uva Nebbiolo no Barolo. Essa padronização preservou a identidade histórica da denominação de origem.
Em 1996, o banco toscano contratou o agrônomo Giovanni Minetti para remodelar os vinhedos e revitalizar os rótulos da Fontanafredda. A transição definitiva veio em 2008, quando Oscar Farinetti e seu sócio Luca Baffigo adquiriram o controle da propriedade em uma transação avaliada em 90 milhões de euros, iniciando a transição para métodos de cultivo com certificação orgânica.
Valorização de terras e turismo gastronômico
A reconfiguração financeira atraiu capital estrangeiro e inflacionou a terra na região. Em 2016, a tradicional vinícola Vietti, situada em Castiglione Falletto, foi vendida a um grupo norte-americano por um montante reportado na época em cerca de 55,6 milhões de dólares pelo jornal La Stampa.
Atualmente, o valor do hectare vinícola pode superar a marca de 2 milhões de euros, o que atraiu o interesse de corporações globais de artigos de luxo. A debandada rural que esvaziava os campos para alimentar montadoras e fábricas deu lugar a um fluxo reverso: a região de Alba hoje atrai força de trabalho externa e turistas qualificados, reunindo dezenas de hotéis boutique e cerca de 15 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin em um raio de vinte quilômetros.
Fonte: cartacapital.com.br