Harmonia Enlouquece celebra 25 anos de arte e saúde mental com o disco o Quinto dos Infernos
O grupo musical Harmonia Enlouquece, formado por pacientes em tratamento psiquiátrico no Rio de Janeiro, atingiu um marco histórico ao completar um quarto de século de existência. Para celebrar a trajetória, a banda lançou seu quinto álbum de estúdio, intitulado O Quinto dos Infernos, em um evento que reuniu fãs e familiares no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira. O projeto reafirma a potência da arte como ferramenta de emancipação e cuidado, seguindo os preceitos da humanização defendidos pela psiquiatra Nise da Silveira.
A iniciativa surge como um exemplo prático do sucesso da Reforma Psiquiátrica no Brasil, que busca substituir métodos invasivos e o isolamento por integração social e expressão criativa. Com 12 faixas inéditas, o novo trabalho consolida um repertório que já soma 65 composições gravadas ao longo de duas décadas e meia. O grupo não apenas produz música, mas desafia o estigma da loucura ao ocupar espaços culturais e dar voz a quem historicamente foi silenciado pelo sistema de saúde.
Protagonismo e criação no Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro
À frente do projeto desde sua fundação está o psiquiatra Francisco Sayão, o Dr. Kiko, diretor-geral do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ). Ele destaca que o diferencial do Harmonia Enlouquece é o protagonismo dos pacientes, que deixam de ser meros objetos de tratamento para se tornarem autores de suas próprias histórias. Ao longo dos anos, cerca de 75 usuários do sistema de saúde mental já integraram o conjunto, contribuindo com letras, melodias e performances.
O Dr. Kiko, que também atua como violonista e compositor no grupo, enfatiza que a abertura para a colaboração espontânea permite que os pacientes sigam suas vidas com mais autonomia. A estrutura da banda funciona como um espaço de acolhimento onde o talento individual é valorizado acima do diagnóstico clínico. Essa abordagem rompe com a lógica tradicional onde o tratamento atendia prioritariamente às conveniências sociais ou familiares, devolvendo ao indivíduo o controle sobre sua identidade.
Trajetória de Hamilton de Jesus Assunção e o poder da música
Um dos pilares do grupo é o vocalista e compositor Hamilton de Jesus Assunção, de 61 anos. Em tratamento desde a juventude, Hamilton encontrou na música uma forma de estabilidade que os métodos convencionais nem sempre garantiram. Um dado impressionante reforça a eficácia dessa abordagem terapêutica: desde que começou a cantar e compor no Harmonia Enlouquece, há 25 anos, Hamilton não precisou de novas internações hospitalares.
O artista, que frequentemente é comparado ao ícone Arthur Bispo do Rosário por sua força criativa, começou sua jornada musical em oficinas de musicoterapia. O que antes eram anotações esparsas em papéis encontrados na rua transformou-se em letras potentes que comunicam a realidade do sofrimento mental com humor e sensibilidade. No palco, sua presença carismática e voz marcante transformam a percepção do público sobre as capacidades de quem vive com transtornos psíquicos.
Ruptura com o estigma e a estreia revolucionária na Lagoa
A história do grupo é marcada por atos de resistência desde sua primeira apresentação pública em 2001. Durante um evento na Lagoa Rodrigo de Freitas, a banda decidiu tocar a canção “Sufoco da Vida”, que abordava abertamente o uso de medicamentos controlados, apesar das recomendações contrárias da organização. A recepção do público foi imediata, gerando uma identificação profunda através do humor e da verdade factual sobre o cotidiano do tratamento.
Segundo o psicólogo e musicoterapeuta Sidney Dantas, um dos fundadores do projeto, falar abertamente sobre substâncias como o Haldol permitiu que o público se reconhecesse naquelas letras. Essa transparência ajudou a retirar o peso da vergonha que muitos pacientes sentiam. O riso e a música tornaram-se pontes para que o sofrimento fosse ressignificado, provando que a arte pode comunicar para além dos limites da bolha da saúde mental.
Legado da Reforma Psiquiátrica e o impacto cultural do grupo
O lançamento de O Quinto dos Infernos coincide com o período em que se discute os avanços da Lei 10.216, que instituiu a Reforma Psiquiátrica no Brasil. Especialistas da área, como Alexandre Wanderley e Vandré Vidal, apontam o Harmonia Enlouquece como um patrimônio cultural que eleva o nível das discussões sobre saúde pública. O grupo demonstra que o bem-estar está intrinsecamente ligado à sensação de pertencimento e orgulho pessoal.
Para os coordenadores de coletivos parceiros, o sucesso da banda é uma evidência científica e social de que a liberdade é o melhor caminho para a cura. Ao se verem como músicos e compositores, os integrantes constroem uma nova identidade que substitui o rótulo de “doente”. O projeto segue como uma referência nacional, provando que a harmonia, mesmo quando nasce do caos aparente, é capaz de gerar transformação real e duradoura na sociedade.
Fonte: cartacapital.com.br