Cuidados paliativos: entenda por que o tratamento pode começar logo após o diagnóstico
A percepção pública sobre os cuidados paliativos ainda é frequentemente limitada à fase final da vida, gerando equívocos sobre o real propósito dessa abordagem médica. Especialistas reforçam que a assistência pode — e deve — ser iniciada logo após o diagnóstico de uma doença grave, atuando de forma integrada aos tratamentos curativos ou de controle da enfermidade. A discussão ganha relevância às vésperas do Dia Mundial de Cuidados Paliativos, celebrado em 10 de outubro.
A expansão da assistência especializada no Brasil
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 56,8 milhões de pessoas necessitam de cuidados paliativos anualmente em escala global, embora apenas 14% tenham acesso efetivo ao serviço. No Brasil, a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) estima que mais de 625 mil pessoas precisem dessa assistência anualmente. O cenário, contudo, apresenta sinais de crescimento.
O Atlas Brasileiro de Cuidados Paliativos 2025 revela que o número de programas especializados no país saltou de 234, em 2022, para 423, em 2025. Segundo a geriatra e paliativista Jackeline Gomes, o objetivo central é prevenir e aliviar o sofrimento decorrente de doenças progressivas, como cânceres, demências, patologias neurológicas e insuficiências de órgãos vitais.
Abordagem multiprofissional além da doença
O atendimento paliativo transcende o controle de sintomas físicos, integrando dimensões emocionais, sociais e familiares. A assistência é conduzida por uma equipe multiprofissional composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas e nutricionistas. Essa estrutura é fundamental, pois o sofrimento em quadros graves raramente se restringe ao corpo.
Conforme explica Jackeline Gomes ao Jornal Opção, a intervenção busca garantir a funcionalidade e a qualidade de vida do paciente. A indicação ocorre sempre que a condição de saúde impacta negativamente o bem-estar, independentemente da fase da doença, permitindo que o suporte acompanhe o paciente de forma contínua.
Desmistificando a continuidade do tratamento
Um dos maiores mitos sobre a área é a crença de que o início dos cuidados paliativos implica a interrupção de terapias curativas. Na prática, um paciente oncológico pode manter sessões de quimioterapia enquanto recebe suporte paliativo para gerenciar efeitos colaterais como náuseas, dor e fadiga. A decisão sobre quais intervenções manter é sempre pautada pelos objetivos e desejos individuais do paciente.
Casos recentes, como o do influenciador Lito Sousa, falecido em 1º de outubro, ajudaram a esclarecer que o suporte domiciliar não significa, necessariamente, uma etapa terminal exclusiva. Históricos como os de Pelé e do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter também ilustram como a assistência paliativa pode ser adaptada a diferentes momentos da trajetória clínica, focando sempre na dignidade e no respeito às escolhas do indivíduo.
Planejamento e autonomia nas decisões antecipadas
A paliativista destaca a importância de estabelecer diretivas antecipadas de vontade. Discutir previamente preferências sobre o local de cuidado, a disposição para internações hospitalares e a escolha de representantes legais para decisões futuras traz segurança aos familiares. Esse diálogo prévio evita que parentes precisem decidir sob pressão em momentos de fragilidade.
A mudança de paradigma passa, portanto, por desvincular a especialidade da ideia de abandono terapêutico. O foco permanece na vida, buscando oferecer suporte integral, dignidade e respeito à autonomia do paciente em todas as etapas do processo de adoecimento.
Fonte: jornalopcao.com.br