Desigualdade salarial na Coreia do Sul atinge patamares críticos com o envelhecimento

A Coreia do Sul, reconhecida mundialmente como uma potência nos setores de tecnologia e indústria, enfrenta um desafio persistente e profundo em seu mercado de trabalho: a maior disparidade salarial entre gêneros entre os países membros da OCDE. Dados governamentais recentes indicam que, enquanto mulheres de 27 anos recebem, em média, 8% a menos que seus pares masculinos, essa lacuna se amplia drasticamente, atingindo 50% ao final dos 50 anos de idade.
O cenário, detalhado em um relatório da organização Human Rights Watch (HRW), revela um ciclo de exclusão que se inicia cedo e se agrava ao longo da trajetória profissional. A ativista Min Hee Kim aponta que a divisão de trabalho doméstica reflete diretamente na estrutura do mercado, onde a progressão de carreira feminina é frequentemente interrompida por expectativas sociais de cuidado, resultando em um acúmulo de desvantagens econômicas irreversíveis.
Barreiras estruturais e a desvalorização profissional
Historicamente, a discriminação no mercado sul-coreano evoluiu de práticas explícitas, como a demissão compulsória por casamento, para mecanismos mais sutis. Embora a formação universitária feminina supere a masculina desde a década de 1980, o mercado de trabalho não reflete essa paridade educacional. Estudos indicam que, apenas um ano após a graduação, mulheres já enfrentam uma defasagem salarial de 22% em relação aos homens.
Ao tentarem retornar ao mercado após períodos dedicados à maternidade ou ao casamento, muitas profissionais encontram portas fechadas para cargos de alta qualificação. A alternativa, na maioria dos casos, resume-se a ocupações precárias, como serviços de limpeza ou atendimento em call centers, que oferecem remuneração reduzida e pouca perspectiva de ascensão hierárquica.
O declínio salarial após os 40 anos
A trajetória de rendimentos das mulheres sul-coreanas atinge seu ápice no final dos 30 anos, entrando em uma fase de queda constante a partir desse período. O Ministério da Igualdade de Gênero do país aponta que a segregação ocupacional e a falta de reconhecimento da experiência prévia após interrupções na carreira são fatores determinantes para essa curva descendente.
A percepção de falha individual é frequentemente combatida pela consciência coletiva. Ao compartilharem suas trajetórias, muitas trabalhadoras compreendem que o declínio de suas carreiras não é um reflexo de incapacidade pessoal, mas sim o resultado de uma discriminação estrutural profundamente enraizada nas práticas institucionais e sociais do país.
Impactos na aposentadoria e o futuro previdenciário
A desigualdade acumulada ao longo da vida ativa culmina em uma disparidade severa na velhice. Em outubro de 2025, os dados indicavam que as mulheres recebiam, em média, apenas 53% do valor da pensão nacional paga aos homens. O sistema de “salário de pico”, que reduz os rendimentos de trabalhadores mais velhos antes da aposentadoria, agrava ainda mais a vulnerabilidade financeira desse grupo.
Especialistas defendem que a solução exige uma mudança sistêmica, incluindo a transparência nas estruturas salariais e a assunção do cuidado como responsabilidade pública. A implementação de políticas que garantam igualdade de remuneração para funções equivalentes é vista como um passo essencial para reverter o cenário onde mulheres são progressivamente afastadas de recursos e direitos à medida que envelhecem.