POLÍCIA

Memórias do Simve: o relato de um ex-policial sobre o governo Marconi Perillo

A trajetória de quem integrou o Serviço de Interesse Militar Voluntário Estadual (Simve) em Goiás é marcada por um sentimento de precariedade que ressurge no debate público. Mais de uma década após o fim do programa, um ex-integrante, que prefere manter o anonimato, descreve a transição abrupta entre a farda e o desemprego como o ponto culminante de uma experiência pautada por disparidades salariais e estruturais. O relato ganha novo fôlego em meio à campanha eleitoral de 2026, na qual o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) busca retornar ao comando do Estado.

A rotina sob o Simve e a disparidade de condições

O ingresso no programa, criado em 2012, exigia um processo seletivo rigoroso, incluindo provas, testes físicos e investigação da vida pregressa. Contudo, uma vez nas ruas, a realidade dos temporários distanciava-se drasticamente da dos militares efetivos. Enquanto um soldado de primeira classe recebia cerca de R$ 4 mil, o integrante do Simve contava com uma remuneração próxima a R$ 1,3 mil, sendo obrigado a realizar serviços extras para complementar a renda.

A desvalorização, segundo o entrevistado, ia além do contracheque. Havia carência de equipamentos básicos, como coletes balísticos e viaturas, forçando o patrulhamento a pé em diversas situações. O armamento também era distinto: enquanto a tropa efetiva utilizava pistolas calibre .40, os temporários operavam com revólveres .38 ou .357, evidenciando uma hierarquia de proteção e recursos que gerava constante insatisfação entre os agentes.

Limitações de carreira e a decisão do STF

Embora detivessem poder de polícia e prerrogativas estatais para realizar prisões, os integrantes do Simve enfrentavam um teto invisível. A impossibilidade de promoção por ato de bravura e a ausência de licenças específicas eram pontos de atrito frequentes. O programa, que deveria servir como um reforço temporário, foi encerrado em 2015 após o Supremo Tribunal Federal (STF) declarar a legislação inconstitucional, argumentando que as atividades eram de caráter permanente e deveriam ser exercidas por servidores concursados.

O desfecho foi traumático para milhares de homens. Após um breve período em funções administrativas, como no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), o vínculo foi rompido. O ex-policial resume o impacto: “Na sexta-feira eu era policial; na segunda-feira estava desempregado”. A decisão judicial evidenciou a fragilidade de um modelo que, segundo o STF, ignorava a existência de um cadastro de reserva de concursados em favor de contratações temporárias.

Histórico de tensões na segurança pública

O relato do ex-Simve integra um histórico de conflitos trabalhistas que marcaram as gestões de Marconi Perillo. Em 2013, a Polícia Civil de Goiás protagonizou uma greve de quase três meses, reivindicando reajustes e reestruturação de carreira. A resposta do Executivo, que incluiu o corte de ponto dos grevistas, aprofundou o abismo entre o governo e a categoria, gerando um desgaste político que perdurou por anos.

A insatisfação também atingiu os militares e bombeiros, especialmente após a alteração no cronograma de reajustes salariais previstos para 2015. A postergação dos pagamentos, oficializada pela Lei estadual nº 19.122/2015, gerou protestos de entidades representativas. Embora o governo tenha anunciado investimentos, como a criação do Comando de Operações de Divisas (COD) e a construção de unidades prisionais, a relação com os profissionais da área permanece como um dos pontos mais sensíveis da trajetória política do candidato, conforme detalhado pelo Jornal Opção.

Fonte: jornalopcao.com.br

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