Ópera Chica da Silva resgata humanidade da personagem em montagem inédita
A Fundação Clóvis Salgado estreou em setembro, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, a ópera Chica da Silva. A obra inédita, com música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone, propõe um olhar renovado sobre uma das figuras mais emblemáticas da história brasileira. Após uma pré-estreia em Diamantina, a produção ocupou o Grande Teatro Cemig Palácio das Artes com récitas que buscam distanciar a protagonista dos estereótipos que marcaram sua trajetória no imaginário popular.
A desconstrução do mito através da linguagem lírica
Diferente das representações consagradas pelo cinema e pela televisão, que frequentemente reduziram a personagem à imagem da mulher sedutora, a nova ópera busca a complexidade humana. Interpretada pela soprano Marly Montoni, a Chica da Silva apresentada no palco é uma mulher que negocia sua existência em uma sociedade escravocrata e profundamente hierarquizada do século XVIII. A montagem evita a romantização, focando nas estratégias de sobrevivência, medos e desejos de uma mulher negra que conquistou a liberdade e construiu uma família em um cenário de restrições brutais.
Integração artística e o peso da memória sonora
A produção conta com a direção-geral de Cláudia Malta, direção cênica de Julianna Santos e regência de André Brant. O espetáculo une a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico de Minas Gerais e a Cia. de Dança Palácio das Artes em uma narrativa que utiliza o som como elemento de memória. A trilha sonora de Guilherme Bernstein integra elementos contemporâneos aos vissungos, cantos de origem africana que compõem a identidade cultural da população negra em Minas Gerais.
O protagonismo feminino no centro do palco
Ao colocar Chica da Silva no centro do palco, a instituição amplia o repertório operístico, historicamente dominado por heroínas europeias. A proposta não é corrigir o passado, mas interrogá-lo, permitindo que a personagem deixe de ser apenas um objeto de narrativas alheias para ocupar o lugar de protagonista de sua própria história. A montagem reafirma a importância de revisitar figuras históricas sob novas perspectivas, reconhecendo que a complexidade de trajetórias como a de Chica exige um olhar atento às contradições do período colonial.
Para mais informações sobre a programação cultural da instituição, acesse o site oficial da Fundação Clóvis Salgado.
Fonte: jornalopcao.com.br