POLÍCIA

Intervenção urbana em Goiânia resgata memória do Césio-137 através de réplicas de cadeiras

Goiânia despertou nesta segunda-feira, 28, sob o impacto de uma intervenção artística que busca confrontar o esquecimento histórico sobre o acidente com o Césio-137. Réplicas da cadeira que serviu de suporte para a cápsula radioativa em 1987 foram instaladas em pontos estratégicos da capital. A ação é conduzida pelo artista e professor Glauco Gonçalves, que utiliza o mobiliário como um símbolo de resistência e cobrança por reparação histórica, passados 39 anos do desastre.

A urgência do reconhecimento de Maria Gabriela

O projeto artístico, desenvolvido pelo docente da Universidade Federal de Goiás (UFG), propõe uma releitura do calendário oficial do acidente. Ao destacar o dia 28 de setembro, o artista busca tirar o foco exclusivo do dia 13 de setembro — data em que a peça foi encontrada — para homenagear Maria Gabriela. Ela foi a responsável por identificar o perigo e entregar o material à Vigilância Sanitária, um gesto solitário que, segundo o autor, foi determinante para evitar uma tragédia de proporções ainda maiores.

Para o artista, a sociedade e o poder público falharam em reconhecer o papel fundamental desta mulher. Glauco Gonçalves argumenta que, ao ignorar o momento em que a crise começou a ser contida, a narrativa oficial omite o protagonismo de quem agiu para salvar vidas. A intervenção busca, portanto, reordenar a história e conferir o devido crédito a quem enfrentou o risco de forma direta.

O simbolismo da cadeira e o combate à amnésia temporal

A escolha da cadeira como objeto central da intervenção não é casual. O móvel representa o local onde a cápsula permaneceu na Vigilância Sanitária, emitindo radiação por um período crítico enquanto aguardava providências. A réplica, agora inofensiva, atua como uma metáfora da espera tóxica e da negligência que persiste em relação às vítimas e aos trabalhadores que atuaram na contenção do desastre.

A obra de Glauco Gonçalves denuncia a ausência de memoriais, placas de homenagem e o tratamento inadequado destinado aos envolvidos ao longo das últimas décadas. Segundo o professor, a instalação é um chamado contra a amnésia temporal, cobrando que as promessas de reparação não fiquem apenas no campo das intenções. O projeto pode ser acompanhado por meio de fontes como o Jornal Opção, que detalhou a motivação do artista.

Uma crítica à falta de políticas de reparação

Além da homenagem a Maria Gabriela, a intervenção expõe a fragilidade das políticas públicas voltadas aos sobreviventes e profissionais que lidaram com o material radioativo. A falta de reconhecimento formal, como a nomeação de ruas ou a criação de memoriais, é apontada pelo artista como um reflexo de uma dívida histórica não quitada. A cadeira, enquanto objeto de arte, torna-se um instrumento de pressão política e social.

O artista reforça que, embora a réplica não emita mais radiação, ela carrega o peso de uma espera que se arrasta por quase quatro décadas. A iniciativa convida a população a refletir sobre o que foi aprendido com o episódio e sobre a importância de honrar aqueles que, em meio ao caos, assumiram a responsabilidade de proteger a coletividade goianiense.

Fonte: jornalopcao.com.br

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