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Câncer na família: entenda por que antecipar exames nem sempre é a melhor estratégia

A presença de casos de câncer no histórico familiar gera, naturalmente, preocupação entre parentes. No entanto, a crença de que o diagnóstico de um familiar exige automaticamente a antecipação de exames de rastreamento em todos os outros membros é um mito. Segundo dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer), apenas de 5% a 10% dos tumores possuem uma origem hereditária comprovada.

A avaliação de risco deve ser individualizada e baseada em critérios clínicos rigorosos. O médico epidemiologista Arn Migowski, do Inca, explica que a suspeita de uma síndrome de câncer familial surge a partir da análise detalhada do histórico clínico e do padrão de tumores entre antepassados. Fatores como a idade do diagnóstico, o tipo de neoplasia e a recorrência em um mesmo lado da família são determinantes para definir a necessidade de uma investigação especializada.

Critérios para investigação genética e sinais de alerta

Não existe um critério isolado que confirme a predisposição hereditária. Sinais como diagnósticos em idades precoces — geralmente abaixo dos 50 anos — e a presença de múltiplos tumores primários em uma mesma pessoa justificam uma avaliação médica. No caso do câncer de mama, por exemplo, a atenção se volta para diagnósticos em homens, tumores bilaterais ou a combinação com câncer de próstata agressivo e pâncreas na mesma linhagem.

Já no câncer colorretal, a suspeita pode surgir diante de múltiplos pólipos identificados em colonoscopias ou histórico de síndromes específicas, como a de Lynch. Essa condição compromete a correção de erros na duplicação do DNA, elevando o risco para diversos órgãos. Nesses cenários, o encaminhamento para aconselhamento genético é o passo fundamental antes de qualquer intervenção ou testagem em larga escala.

O papel estratégico do teste em cascata

A investigação genética segue uma lógica de eficiência, começando sempre pela pessoa que desenvolveu a doença. A oncologista clínica Clarissa Baldotto, da Einstein Hospital Israelita, reforça que não se recomenda testar pessoas saudáveis sem uma indicação clara ou sem que a mutação tenha sido previamente confirmada no familiar acometido. Quando a predisposição é confirmada, o rastreamento passa a ser personalizado, podendo incluir exames mais frequentes ou em idades inferiores às recomendadas para a população geral.

Riscos do rastreamento sem indicação médica

A realização de exames por conta própria, movida pela ansiedade, pode trazer prejuízos à saúde. Procedimentos de rastreamento sem indicação adequada aumentam a incidência de falsos positivos, o que frequentemente resulta em biópsias desnecessárias e estresse emocional. Além disso, métodos como a mamografia envolvem exposição à radiação ionizante, cujo acúmulo deve ser evitado quando não há benefício clínico comprovado.

O sobrediagnóstico e o sobretratamento também são preocupações reais, ocorrendo quando lesões que não ofereceriam risco à vida são detectadas e tratadas precocemente. Por isso, toda a jornada de prevenção deve ser balizada por profissionais especializados, que considerem não apenas o histórico familiar, mas também os hábitos de vida e os antecedentes de cada paciente.

Desafios de acesso e novas tecnologias

O acesso a testes genéticos no Brasil ainda enfrenta barreiras significativas. Embora o Ministério da Saúde tenha incorporado o sequenciamento de nova geração para genes BRCA1 e BRCA2 no SUS, a implementação enfrenta desafios de infraestrutura e a ausência de uma linha de cuidado completa para os familiares. Segundo Luciana Holtz, do Instituto Oncoguia, a falta de uma estratégia integrada limita o impacto positivo da medida.

Paralelamente, novas tecnologias como a biópsia líquida buscam detectar sinais moleculares de tumores no sangue antes do surgimento de sintomas. Contudo, estudos recentes, como o PATHFINDER 2 e o NHS-Galleri, indicam que, embora essas ferramentas ampliem a detecção, ainda não há evidências sólidas de que reduzam a mortalidade. Esses exames permanecem como complementos e não substituem os protocolos de rastreamento tradicionais já estabelecidos pela medicina.

Fonte: poder360.com.br

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